A crise do varejo e uma lição para as empresas: é preciso conhecer quem está do outro lado da mesa.

[PT-BR *English below]
Os recentes pedidos de recuperação judicial de grandes redes do varejo brasileiro reacenderam uma preocupação relevante para empresas, fornecedores, credores e parceiros comerciais: o risco financeiro de uma contraparte pode comprometer toda a cadeia de negócios.
Embora os dados do IBGE indiquem crescimento do comércio varejista, parte do setor enfrenta desafios ligados à dependência de crédito, vendas parceladas, necessidade elevada de capital de giro e estruturas físicas mais custosas. Nesse ambiente, a fragilidade de uma empresa não afeta apenas sócios e empregados: ela também pressiona fornecedores, franqueadores, prestadores de serviços, instituições financeiras e demais agentes envolvidos.
A pergunta central, portanto, é como as empresas podem se proteger nas relações comerciais do dia a dia – e qual é o papel do Direito empresarial nessa prevenção.
A crise de uma empresa e seus efeitos na cadeia de negócios
Empresas do varejo, redes de franquia e licenciadores dependem de uma ampla rede de fornecedores, distribuidores, franqueados, prestadores de serviços, investidores e instituições financeiras. Quando um desses elos perde capacidade financeira, o problema pode se espalhar rapidamente.
O caso da Casas Bahia ilustra essa dimensão: o pedido de recuperação judicial envolve aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas e cerca de 28 mil credores, entre instituições financeiras, fornecedores, trabalhadores e outros agentes econômicos. O dado reforça uma lição objetiva: o risco de crédito começa muito antes de uma dívida deixar de ser paga.
Em um cenário de juros elevados, consumidores tendem a ser mais seletivos, enquanto empresas enfrentam maior custo para financiar estoque, capital de giro, expansão e operações correntes. A combinação de menor consumo, crédito caro e maior necessidade de caixa cria um ciclo de pressão financeira que exige atenção preventiva.
Operações comerciais, dívidas e contratos empresariais
Em períodos de estabilidade, relações comerciais costumam se apoiar em confiança, histórico e expectativa de continuidade. Contratos são renovados, limites de crédito ampliados e garantias mantidas sem grandes revisões. Em momentos de estresse, essa lógica precisa ser repensada.
Fornecer mercadorias a prazo, diferir royalties ou permitir o pagamento posterior de taxas contratuais significa, na prática, conceder crédito ao parceiro. Por isso, o contrato empresarial deve responder não apenas ao que será contratado, mas também a uma pergunta essencial: quem é a outra parte e qual é sua situação financeira?
Nesse contexto, ferramentas como “KYP - Know Your Partner” e “KYS - Know Your Supplier” ganham relevância. Elas permitem investigar, classificar e acompanhar parceiros e fornecedores de forma proporcional ao risco, considerando indicadores financeiros, societários, reputacionais, operacionais e jurídicos.
O benefício é direto: a empresa passa a identificar sinais de fragilidade, ajustar garantias, revisar limites de exposição, prevenir inadimplementos relevantes e mapear os elos críticos de sua cadeia. Um contrato bem escrito é importante, mas sua eficácia depende das condições reais de quem está do outro lado da relação.
E se o parceiro estiver pior do que parece?
Uma empresa pode manter contratos vigentes, pagamentos em dia e aparência de normalidade, mas ainda assim apresentar sinais relevantes de deterioração: aumento de ações judiciais, protestos, execuções, redução patrimonial, alterações societárias sucessivas ou concentração de ativos em estruturas de difícil localização.
Nenhum desses elementos, isoladamente, indica insolvência. Porém, ignorá-los pode ocultar um risco relevante. Por isso, a análise patrimonial e de viabilidade operacional é uma ferramenta útil para compreender a estrutura de ativos da contraparte, os riscos conhecidos e a suficiência das garantias oferecidas.
A mesma lógica vale para garantidores. Uma garantia pessoal ou real só tem utilidade prática se houver patrimônio capaz de suportá-la quando necessário. Por isso, empresas devem avaliar periodicamente controladores, ativos relevantes, processos, dívidas protestadas, alterações societárias e eventuais mudanças no perfil de risco.
No franchising, conhecer parceiros ganha outra dimensão
Em redes de franquia, essa preocupação é ainda mais relevante. O desempenho da rede depende, em grande medida, da saúde financeira e operacional dos franqueados. Por isso, a análise deve começar antes da assinatura do contrato e continuar durante toda a relação.
Antes da admissão de um novo franqueado, é possível avaliar capacidade financeira, estrutura patrimonial, histórico empresarial, relações societárias e exposição a passivos relevantes. Durante a operação, mecanismos contratuais de acompanhamento permitem identificar alterações no perfil de risco e adotar medidas proporcionais.
Uma boa due diligence não impede a expansão do negócio; ao contrário, permite que a empresa conheça os riscos, classifique-os e decida de forma mais informada. Isso pode levar ao ajuste de garantias, à redução de exposição, à definição de condições de pagamento específicas ou ao aprofundamento da negociação — sempre antes de o problema se concretizar.
O papel do advogado antes do litígio
A atuação jurídica empresarial não precisa começar apenas quando o contrato é descumprido ou quando o conflito chega ao Judiciário. Há um espaço estratégico anterior, voltado à análise de parceiros, revisão de contratos, avaliação de garantias e construção de rotinas de prevenção.
Em relações comerciais recorrentes, especialmente em redes de franquia, o advogado pode contribuir para o acompanhamento patrimonial e processual de franqueados, parceiros e garantidores. A lógica deixa de ser apenas reativa e passa a integrar uma política de prevenção de riscos.
Relatórios patrimoniais e financeiros: o risco é percebido antes de virar crise
Nenhuma análise prevê o futuro. Ainda assim, a crise recente do varejo deixa uma lição clara: tamanho, tradição e tempo de operação não substituem liquidez, governança, capacidade financeira e adaptação ao mercado.
Em cadeias empresariais cada vez mais interdependentes, o risco de um parceiro pode rapidamente se tornar o risco de todos. Contratos bem estruturados, garantias efetivas e conhecimento da contraparte são camadas indispensáveis para a continuidade do negócio.
Quando o problema chega ao Judiciário, muitas vezes a discussão deixa de ser apenas sobre a existência do direito e passa a envolver uma pergunta prática: ainda há patrimônio ou garantia suficiente para recuperar o prejuízo?
⚠️ Este conteúdo tem natureza informativa e não equivale a opinião ou consulta jurídica. Procure um profissional especializado para assessorá-lo.
Autor:
José Lucas de Miranda
Advogado Associado, Núcleo de Contencioso
Saiba mais em: https://www.bariladvogados.com.br/jose
[ENG]
The Retail Crisis and a Lesson for Businesses: Know Who Is on the Other Side of the Table
Recent filings for court-supervised reorganization (recuperação judicial) by major Brazilian retail chains have renewed an important concern for businesses, suppliers, creditors, and commercial partners: a counterparty’s financial risk can compromise an entire business ecosystem.
Although data from the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE) indicate growth in retail sales, parts of the industry continue to face challenges arising from reliance on credit, installment sales, substantial working capital requirements, and costly brick-and-mortar operations. In this environment, a company’s financial distress affects more than its shareholders and employees: it also places pressure on suppliers, franchisors, service providers, financial institutions, and other stakeholders.
The key question, therefore, is how businesses can protect themselves in their day-to-day commercial relationships—and what role business law can play in preventing these risks.
A Company’s Financial Crisis and Its Impact on the Business Ecosystem
Retailers, franchise systems, and licensors depend on broad networks of suppliers, distributors, franchisees, service providers, investors, and financial institutions. When one of these links loses its financial capacity, the problem can spread quickly throughout the network.The Casas Bahia case illustrates the scale of this issue: its court-supervised reorganization filing involves approximately BRL 17.3 billion in debt and roughly 28,000 creditors, including financial institutions, suppliers, employees, and other economic stakeholders. These figures underscore a straightforward lesson: credit risk arises long before a debt goes unpaid.
In a high-interest-rate environment, consumers tend to become more selective, while businesses face higher costs to finance inventory, working capital, expansion, and ongoing operations. The combination of lower consumption, expensive credit, and increased cash requirements creates a cycle of financial pressure that calls for preventive action.
Commercial Transactions, Debt, and Business Contracts
During periods of stability, commercial relationships are often built on trust, track record, and an expectation of continuity. Contracts are renewed, credit limits are increased, and guarantees and collateral remain in place without significant review. In periods of financial stress, however, this approach must be reconsidered.
Supplying goods on credit, deferring royalty payments, or allowing contractual fees to be paid at a later date effectively means extending credit to a business partner. A business contract must therefore address not only what is being agreed upon, but also an essential question: who is the other party, and what is its financial condition?
In this context, tools such as KYP—Know Your Partner and KYS—Know Your Supplier become increasingly important. They enable businesses to investigate, classify, and monitor partners and suppliers in a manner proportionate to the relevant risk, taking into account financial, corporate, reputational, operational, and legal indicators.
The benefit is clear: businesses are better positioned to identify warning signs of financial distress, adjust guarantees and collateral, reassess exposure limits, prevent material defaults, and map critical links in their supply and business networks. A well-drafted contract is important, but its effectiveness ultimately depends on the real-world circumstances of the party on the other side of the relationship.
What If the Business Partner Is in Worse Shape Than It Appears?
A company may have active contracts, remain current on its payments, and appear to be operating normally while still showing meaningful signs of deterioration, such as an increase in lawsuits, notarized protests of unpaid debts, debt enforcement proceedings, asset depletion, repeated changes in its ownership or corporate structure, or the concentration of assets in structures that are difficult to trace.
None of these factors, standing alone, necessarily indicates insolvency. Ignoring them, however, may conceal a material risk. An asset and operational viability assessment can therefore be a valuable tool for understanding the counterparty’s asset structure, known risks, and whether the guarantees or collateral provided are sufficient.
The same principle applies to guarantors. A personal guarantee or collateral-backed security is only useful in practice if sufficient assets are available to support it when enforcement becomes necessary. Businesses should therefore periodically assess controlling shareholders or owners, material assets, pending legal proceedings, formally protested debts, changes in corporate structure, and any developments that may alter the applicable risk profile.
In Franchising, Knowing Your Business Partners Takes on Another Dimension
This concern is even more significant in franchise systems. The performance of the network depends, to a considerable extent, on the financial and operational health of its franchisees. The assessment should therefore begin before the franchise agreement is signed and continue throughout the entire relationship.
Before approving a new franchisee, the franchisor can evaluate the candidate’s financial capacity, asset structure, business track record, ownership interests and affiliations, and exposure to material liabilities. During the operation of the franchise, contractual monitoring mechanisms can help identify changes in the franchisee’s risk profile and support proportionate action.
Effective due diligence does not prevent business expansion. On the contrary, it enables the company to identify and classify risks and make more informed decisions. This may lead to adjustments in guarantees or collateral, reduced exposure, tailored payment terms, or more in-depth negotiations—always before the risk materializes into an actual problem.
The Attorney’s Role Before Litigation
Business attorneys do not need to become involved only after a contract has been breached or a dispute has reached the courts. There is an earlier strategic role focused on assessing business partners, reviewing contracts, evaluating guarantees and collateral, and developing preventive procedures.
In recurring commercial relationships—particularly within franchise systems—attorneys can assist in monitoring the assets, financial condition, and litigation exposure of franchisees, business partners, and guarantors. The legal function therefore moves beyond a purely reactive approach and becomes an integral part of the company’s risk-prevention policy.
Asset and Financial Reports: Identifying Risk Before It Becomes a Crisis
No analysis can predict the future. Nevertheless, the recent retail crisis offers a clear lesson: size, tradition, and years in business are no substitute for liquidity, sound governance, financial capacity, and the ability to adapt to market conditions.
In increasingly interconnected business ecosystems, one partner’s risk can quickly become everyone’s risk. Well-structured contracts, enforceable guarantees and collateral, and a thorough understanding of the counterparty are indispensable layers of protection for business continuity.
By the time a dispute reaches the courts, the issue often extends beyond whether a legal right exists and becomes a practical question: are there still sufficient assets, guarantees, or collateral to recover the losses?
⚠️ This content is provided for informational purposes only and does not constitute a legal opinion or legal advice. Consult qualified legal counsel for assistance with your specific circumstances.
Author:
José Lucas de Miranda
Associate Attorney, Litigation Practice
Learn more at: https://www.bariladvogados.com.br/jose




Comentários